Oasi

floresta-oásis

Por: Jéferson Assumção e Cecília Sá

Quadro Amarelo Plataforma de Escrita

Criativa https://www.quadroamarelo.com.br/

Perdida no deserto, a Nômade se vê diante da formação de uma intensa tempestade de areia. Aos poucos ela vem crescendo num formato diferente do que as outras tempestades que ela conhecia. Tem um centro que se expande em direção a ela, de forma assustadora. É uma espécie de nuvem de silício, base da areia do deserto, consubstanciando-se em um corpo digital- analógico, um corpo de um oásis imenso flutuante vindo em direção à nômade. Uma onda de areia, um lento tsunami de sílica em sua direção. Tenta fugir, mas já é tarde. O jeito é se deitar no deserto e se cobrir com sua mochila casulo, até que tudo passe. Uma intensa tempestade a sacode, uivando ao seu redor e sacodindo seu corpo, a ponto de fazê-la se sentir flutuando. Quando finalmente passa o temporal de átomos, areia, vidro e silício, a Nômade abre seu casulo-mochila e o que vê? Ela está dentro da nuvem, do imenso oásis colorido, cheio de uma vegetação brilhante, terra de minerais virtuais. Seu peito arfa, mas ela sabe que finalmente chegou onde queria. Abre um imenso sorriso. A Nômade chega em Oasi com sua mochila de viajante. A mochila que tem sido sua árvore, sua concha, sua casa-caracol. É uma Nômade chegando à floresta-oásis, depois de tanto palmilhar a areia quente e seca. Entra agora no rarefeito bosque permeável e indefinido, logo transformado na densidade diversa da floresta até alcançar o oásis central. Ela é mais uma em busca de Oasi. Sabe que chegou para ajudar a povoar aquele lugar de palavras, imagens, sons e principalmente dança. Está sozinha, mas logo é convidada por uma voz a fruir o que lá existe e a ajudar a fazer o que ainda precisa ser feito para ampliar e ampliar Oasi, até que um mundo novo se faça, a partir da dança, da sua dança e de quem mais vier. Uma dança que celebra e atrai a diversidade, novas espacialidades e tempos novos. Dança de eventos modificadores, capazes de construir um outro agora, um aqui-ali ubíquo, presente em todos os lugares ao mesmo tempo, digital e analógico como a própria Oasi.

A Nômade está fugindo da destruição das florestas, do pantanal, da fumaça cinza, do mar destroçado. Também está cansada da mesmice dos eventos-planuras, rasos e que acostumaram a todos ao redor dela a uma vida sem transformações. Não quer só pagar e consumir, mas também semear e fazer crescer sementes e formas, colocar fios e deixar rastros. Rastros que funcionam tal qual os do grafite e o pixo, como na cidade de onde ela vem. Para que outras e outros possam seguir e juntos deixar marcas de seus passos na planura de areias-flores de Oasi. Chegou ali porque lhe disseram que havia outras lá, em busca de viver e fruir com mais intensidade. Querem mais, não lhes nutre o desencantamento racional-instrumental de tudo. Estão ávidas por conteúdos novos, por experiências modificadoras, profundamente ligadas tanto às diversas ancestralidades quanto às inovações – narrativas, tecnológicas e estéticas. Ela também está ali em busca de conteúdos e formas hoje com cada vez menos espaço no deserto. Cada vez mais raros, quando não extintos. A Nômade gosta de ser nômade, mas também deseja encontrar mais nômades iguais- diferentes a ela. Curiosas e abertas, engajadas em transformações. Ao mesmo tempo que se divertem, que dançam, que vivem, querem agir, querem construir novas possibilidades de mundos. Aos poucos a Nômade vai descobrindo a floresta de florestas dentro de Oasi. São os oásis-túneis grafitados com suas paredes caoticamente belas e coloridas, o oásis-açude agrestino, o oásis- rio, um oásis-acampamento, um oásis-pista-de-dança, dispostos em diferentes alturas, flutuando nas copas ou semi-enterrados, como plataformas contínuas ligadas por pontes, cordas e rampas. Claro, há o oásis grande palco central, ao lado da pista de skate, local de encontro e reencontros, ali todas chegam e é onde acontecem os grandes shows, conferências e festas. Mas há também o oásis-bar, o oásis feira. Mais adiante, dá pra escutar o som de um contrabaixo no oásis-jazz, em que um quarteto faz seus próprios experimentos. O oásis-galpão de escola de samba é só alegria, assim como o das batalhas de hip-hop. Do portal para o oásis-ateliê, a Nômade percebe as inúmeras ferramentas, instrumentos e materiais, que mais tarde pretende ela mesma utilizar. Um pouco cansada, resolve entrar no meio do mato e enxerga o oásis de redes e as cápsulas- casulos, locais de descanso e expressão individual. Nesse momento, a Nômade começa a entrar em contato com os legados e pensamentos das outra nômades. No interior de cada elemento pendurado, deixado por cada uma, há textos, imagens, ideias, experimentações artísticas e alternativas para a construção de novas possibilidades. O oásis-universidade ainda mais entranhado na mata que se expande do aparentemente pequeno ponto de floresta no deserto. Respira.

De volta, a Nômade senta e um grande gramado à espera do show. A mochila, velha conhecida, lhe serve de colchão e de casulo. Até que centenas, milhares de outras Nômades e Nômades pontilham e preenchem quase totalmente o gramado-oásis, antes do show do dia-noite. Após a apresentação, provavelmente a Nômade irá à festa que para a qual outra Nômade já a tinha chamado antes mesmo de ela entrar em Oasi. Talvez seja por isso mesmo que está ali. Quanto tempo ficará? Não sabe. Um dia, uma semana, um ano? Sente sede, bebe um copo dágua gelada. Uma cervejinha mais tarde? Claro. Tem um bar ali do lado. Há o que as outras nômades trazem para elas e que trocam por moedas com às demais. Gostou do show. Se emocionou, dançou, abraçou Nômades que nem conhecia. Em seguida, resolve se envolver em uma atividade, assim mesmo, aleatoriamente. Avança nas trilhas da floresta, guiada por feixes de luz entre as frestas, lhe parecem distintos portais. As jornadas são múltiplas. Os portais dão acesso a outros espaços distintos dos eventos do oásis-praça. Abre uma cortina, hackers fazem uma oficina de reciclagem de computadores. Não, não é o que quer agora. Num, indígenas ativistas montam uma mostra de fotos sobre as queimadas na Amazônia. Um ritual aymara a surpreende na sala seguinte. Em outro, um jardim eletrônico de sons e neon está sendo plantado. Fecha a cortina e abre outra: arquitetos desenham uma nova cidade. Sim, pode ser esta. Mas antes, quer saber o que acontece no portal ao lado. Pergunta, um mundo de alternativas está sendo escrito num gigantesco mural. Como faz pra ajudar? Simples: dança, dança e dança. Assim coopera na coleta de infinitas soluções para problemas do mundo desertificado, para o reboot da ordem mundial. Elas são trazidas pelas próprias nômades que entram no oásis? Acertou. Fecha os olhos e começa a entrar no ritmo. Tudo é respiração e ritmo, como se ela estivesse no coração do próprio dançarino do universo. Sua cabeça brilha cada vez mais, como uma estrela radiante. Abre os olhos. A outra Nômade está lá, a que a convidou, e dança, dança como ela. Então, a dança das duas e dos outros presentes acende os grandes faróis da árvore-mãe. Ela lhe sorri e explica que entendeu como Oási se formou. É obra da dança criadora das areias movidas pelo movimento dos que dançam. E elas estão ali para continuar o rimo dos corpos e seus afetos. Depois, sua precursora pede que ela pense em algo pra dar de presente a Oasi, antes de irem embora. Um algo, qualquer algo, uma semente, uma ideia, um objeto que, por menor que pareça, esteja em potência de transformar um quase nada que seja. Ela percebe que deve. Mais uma vez retira a mochila dos ombros. Sim, Oasi ganhará muito com este objeto mágico disruptivo, com todas as possibilidades da mochila que carrega nas costas. E mais ainda, ganhará com ela própria, que decide naquele momento que ficará em Oasi, que viverá em Oasi, que ajudará quem chega a fazer sua trajetória. Quando todas forem embora, ficará apenas a Nômade dançando no vazio, mesmo sem música, mesmo sem luz, mesmo sem nada. Estará lá esperando a sua chegada pra começar o jogo.

Glossário

Árvore-mãe: enorme árvore atrás do palco, cuja copada é formada por farois potentes. Esses, só se acendem com o acúmulo de energia dos que dançam. A dança acende a árvore-mãe. Árvore que dança e com sua dança move Oasi em direção a um mundo melhor. Sua dança desprende energia cósmica que mexe em tudo, combina e recombina tudo, desde um grão de sílex aos animais e montanhas.

Casulos: objetos que levam a experimentações individuais e compartilhamento de alternativas. Podem ser tanto de caráter expressivo, artístico ou social, como de entretenimento. São elementos em redes pendurados nas árvores da Floresta, onde a jogadora pode deixar textos, imagens, músicas, ideias, projetos, experimentações artísticas e alternativas – autorais ou não – como contribuição à construção de novas possibilidades, do Mundo das Alternativas.
Corpo: lugar dos afetos.

Dança: libera a energia para o acendimento das cabeças dos avatares e no acúmulo dessas luzes dos faróis no alto da árvore-mãe, quando se abre um portal para que as Nômades presentes levem suas contribuições para a construção de um outro mundo possível.

Deserto: Lugar de onde veio a Nômade e onde se formou Oasi. Não é um contraponto binário em relação ao oásis, mas uma formação natural com menos ou mesmo quase nada de vegetação, embora com vidas e culturas próprias.

Evento: mudança significativa, transformação. Oasi se refere a um lugar-acampamento, em que acontecem transformações nos que ali chegam, auxiliados por uma mentora, que está na origem do mito de fundação de Oasi, a Nômade, personagem que acompanha o jogador em diferentes momentos de sua jornada.

Floresta: A floresta é o elemento de transição (uma borda) entre o deserto e o Oásis-praça. Formada por um conjunto de troncos, às vezes folhosos, outras vezes não (que podem ser pilotis, feixes de luz etc), tridimensionalizam esse espaço aberto de convívio da praça, ao mesmo tempo que abrigam novos espaços possíveis de interação. Os acessos a esses novos espaços ocorrem de três formas: ilhas-oásis, portais e casulos.

Ihas-oásis: São ilhas flutuantes ao redor do Oásis-praça onde acontecem eventos paralelos como palcos alternativos, espaços lúdicos e de lazer, como pistas de skate, feiras com estantes de vendas ou negócios etc. Pode abrigar o bar, a feira, as lojas, mas ao mesmo tempo manter o contato visual com praça, ouvir o show, sentir os burbúrios em uma presencialidade simultânea. São ampliações da experiência de coletividade e do agir político.

Jogo: tudo é jogo. A cultura é jogo, assim como o conjunto ser humano e suas escolhas. Somos animais lúdicos que sofrem o abandono, mas ao mesmo tempo brincam de entender o mundo. Homo-ludens, jogadora na existência sem sentido. No jogo, a Nômade auxiliará quem joga em seu caminho, em que vai assistir aos shows, oficinas etc, como espécie de preparação para uma grande transformação. Essa vem da energia da dança. Na dança individual, acende-se sua própria cabeça. Na coletiva, acendem-se as luzes em cima da Árvore-mãe. Tudo isso ajuda na grande dança de um novo universo. Sua dança desprende energia cósmica que mexe em tudo, combina e recombina tudo, desde um grão de sílex aos animais e montanhas.

Jogadora: Homo-ludens, aquela que joga, brinca, enquanto existe.

Mochila-casulo: mochila de origem indefinida, que a Nômade trouxe do deserto. Serve como proteção, casulo, árvore, casa, acolhida, defesa para a Nômade. Ao final da jornada (de cada evento de que joga) sugere-se que a deixe pendurada com uma contribuição, deixada ali como presente para futuros visitantes. Mundo das alternativas: construção coletiva de soluções, inventos e alternativas já conhecidas para a construção de um mundo melhor. Jogadoras serão convidadas a ampliar este dicionário com suas ideias e deixá-las em seus casulos-mochilas.

Nômade: mentora. Vai ajudar quem entra pra jogar em sua jornada por Oasi.

Oasi: Oásis em Iorubá. Indica um lugar acolhedor, onde Nômades chegam para se alimentar, descansar, se modificar e fortalecer para continuar a travessia pelo deserto. Oasi se refere a um lugar-acampamento, em que acontecem eventos e transformações nos que ali chegam, auxiliados por uma mentora, a Nômade, que está na origem do mito de fundação. Oásis em Iorubá (ou Yorubá) é “oasi”, língua africana da família nigero-congolesa, falada por 28 milhões de pessoas na Nigéria, Benim, Togo, Serra Leoa e Cuba. Trazida pelos escravos ao Brasil, é parte dos ritos religiosos afro- brasileiros. Traz para o projeto Oasi a importante contribuição da população negra brasileira, cuja cultura se referencia muito nessa língua sub-sahariana e atlântica. Como se trata de uma língua africana que utiliza o alfabero latino, a palavra oasi em iorubá é de fácil compreensão da metáfora que está sendo criada para o ambiente do jogo. A própria palavra “oásis” é praticamente a mesma em inglês (oasis), grego (oási), basco (oasia), espanhol (oasis), alemão (oase), africaner (oase), albanês (oaz) russo (oazis), holandês (oase) etc. Ou seja, trata-se de um nome que pode ser compreendido em boa parte do mundo. Aqui é importante não indicar um contraponto binário em relação ao deserto, mas a uma formação natural com menos ou mesmo quase nada de vegetação, mas com vidas e culturas próprias. Oasi se formaria com bordas e adensamento de vegetação, água e sombra no interior desse quente ambiente. Trata-se de um lugar neste espaço amplo e desértico, formado por grãos de areia (silício) da mesma forma que o próprio universo em que estamos imersos, incluindo Oasi.

Oásis-praça: O espaço de Oasi é organizado pela centralidade de uma grande praça demarcada por bordas permeáveis e de limites imprecisos, que se abre para receber a diversidade de povos nômades. É um espaço de aglomeração em busca de trocas e da construção de novas relações coletivas e alternativas. Ali todos chegam, se aproximam e é onde acontecem os grandes shows, conferências e festas.

Portais: são acessos para outros espaços distintos dos eventos do Oásis-praça. Ao atravessá-los por portas ou túneis, quem joga pode se deparar com salas de reuniões, oficinas, aulas, uma biblioteca de livros em creative commons e copyleft, até com um jardim ao ar livre. Ou, simplesmente, passagens que revelam outros mundos possíveis, outros universos futuros de vivências. A porta, nesse caso, estabelece uma relação de interioridade, de privacidade, podendo conter espaços de acesso restrito.

Respiração: tudo em Oasi é respiração e ritmo, como se a Nômade e e quem joga estivessem no coração do própria dançarina do universo. Tempestade de areia: gênese de Oasi. Reorganiza magicamente os elementos do deserto em um mágico lugar de possibilidades transformadoras. Ubiquidade: característica cultural de nosso tempo digital-analógio, fortemente presente em Oasi. Poder estar em todos os lugares, via mundo digital.